Quem me conhece sabe, sexualidade, identidade de gênero, são alguns dos assuntos que mais me fascinam. Então imagine minha reação ao saber que um estudante de arte vai perder a virgindade em público, em uma performance artística.

Clayton Pettet, 19 anos, é um estudante da Central Saint Martins. Ele irá fazer sexo pela primeira vez em 25 de janeiro de 2014. Isso é parte da performance “Art School Stole My Virginity”. Clayton fará sexo anal, seguro, com um amigo. Após a performance será feito um debate sobre a mesma, sexo, sexualidade, normas sociais.

Clayton define a performance mais como uma pergunta do que uma afirmação. A virgindade tem, para ele, um significado cultural tão grande, que decidiu transformar a perda da sua em uma peça que estimulará uma conversa a respeito. Foi difícil, para ele, quando todos os amigos começaram a perder a virgindade, e ele continuou virgem. O porquê da virgindade dele significar tanto para os outros, é uma questão que o motivou a criar o projeto.

O conceito da performance é muito bem elaborado. Ele diz que performances artísticas devem acontecer apenas uma vez, perder a virgindade é uma das coisas únicas na vida. Ele é fascinado por questões de sexualidade e já explora isso em seus trabalhos a algum tempo. A inversão dos valores atrelados a virgindade chama sua atenção. Como antes ser virgem era algo valorizado, e hoje chegar a sua idade ainda virgem tem conotação negativa. “Art School Stole My Virginity” é uma forma de abordar as normas sociais de gênero e sexualidade.

Para quem sabe inglês, vale ler a entrevista de Clayton para Dazed digital.  

Uma grande discussão surgiu, seria a performance arte ou não? Sexo, tabu. Dá pra separar os dois? Até hoje uma das coisa mais naturais do mundo ainda é um tabu. Sexo é supervalorizado, ou super desvalorizado. Quase nunca tido como normal.

A notícia da performance se espalhou rapidamente, várias matérias, opiniões. Muita repressão, o que não foi nenhuma surpresa. Mas qual o motivo de toda a atenção? Sexo. Ela envolve sexo. Ela parece ser mais passível de julgamento, apenas por se sexual.

Temos uma mania reguladora, tentar impor nossas crenças e valores como se fosse absolutos. Por causa das crenças sexuais, o valor artístico da performance foi imediatamente questionado. Pois sexo anal não passaria a ser arte, só por ser feito dentro de uma galeria. Esse é o argumento mais comum quando se lê sobre o assunto.

Em diversas matérias é citada uma declaração de um grupo ativista LGBT. Declaração contra a performance. Mas é um grupo cristão, fato que nem sempre é citado. Segundo o grupo, a performance “empobrece nossas relações intimas”, uma crença religiosa. Nenhum problemas as pessoas que fazem parte do grupo, seguirem ensinamentos religiosos, mas isso não lhes dá o direito de definir o que é certo e errado. Como sexo deve ser encarado.

Quem foi que deu o direito a alguém de regular a vida sexual alheia? Quem? Quem pode me dizer o que sexo deve significar para mim, quem pode me dizer que não posso desafiar conceitos? É exatamente isso que ele fará, de forma explícita. Com base em conceitos de arte e crenças que temos a respeito de sexo. Não é uma performance vazia.

O estudante define sexo como apenas sexo, um estado mental. Também chama atenção para a separação do sexo gay do sexo hetero, e como alguns meios chegaram a chamar a performance de show de sexo gay ao vivo.  Como se sexo gay fosse mais “promiscuo”.

Clayton respondeu as críticas negativas dizendo que “virgindade é uma performance criada pela espécie humana”. Não é apenas a virgindade que é uma performance criada, e validada, por nós.

Os comentários de quem compartilhava a notícia também me chamaram muito a atenção. Uma chuva de críticas vazias de pessoas que apenas liam o título da matéria, e talvez, no máximo, 3 linhas. Logo corriam para fazer todos os tipos de comparações, criticas, julgamentos, tudo de forma vazia, prepotente e pseudo intelectual.  O que não se aplica apenas ao caso de Clayton.

Existe uma necessidade de criticar, falar contra, para se sentir superior intelectualmente. De ter uma opinião estática, como se a razão absoluta fosse um dom dado pela própria figura de Deus em um momento de intimidade. A necessidade de se sentir mais inteligente, mais informado, melhor que resto de nós, meros mortais com mentes subdesenvolvidas. Faça 3 perguntas sobre a performance, sobre o conceito, e receberá 3 respostas sem embasamento.

Você é obrigado a assistir? A performance, e seu debate, são obrigatórios a população mundial? Irá a galeria apenas quem tem idade o suficiente quem Clayton permitir. Ninguém é obrigado a ver nada. Por tudo que já foi falado a respeito, acredito que estarão lá as pessoas interessadas em discutir sexo, sexualidade, conceitos sociais, pessoas que se sintam confortáveis discutindo tais assuntos, que o encarem com naturalidade.

Ele não obriga ninguém a assistir, então quem tem o direito de impedi-lo? Já recebeu permissão da faculdade e a performance não é ilegal. Não acha interessante? Não vá a galeria, não veja nada a respeito, siga em frente. Existem muitas coisas, no mundo, para você se preocupar e se ocupar.

Assim como não acho que ninguém possa definir o que ele deve, ou não, fazer, não acredito que eu possa definir a performance como arte. Mas tenho o direito de defende-la, e defendo. Diversas expressões corporais, naturais, podem ser utilizadas para performances artísticas. Então acredito que o sexo também possa. Sexualizar algo não o empobrece. O mais importante é o conceito, e ele apresentou um conceito convincente, bem elaborado e relevante. O próprio fato de muitos negarem sua performance como arte, mostra o quão importante ela é. Pois é negada apenas por envolver sexo. Virgindade e os conceitos sexuais são justamente os maiores questionamentos do artista.