Texto originalmente publicado no facebook. 

Um pequeno pedaço de tudo que ainda tenho para falar.

Ainda existe muito a ser falado, discutido e feito. Não necessariamente nessa ordem.

Isso é maior que 20 centavos, é maior que a ineficácia da maquina publica, é maior que a precariedade dos sistemas de transporte, é maior que a agressão da polícia, é maior que o protesto em si. Muito maior.

Os 20 centavos foram a gota d’água, o transporte ruim é um dos problemas diários, a incompetência politica é uma constante, o conformismo foi quebrado.

Os protestos também não são contra o transporte caro e ineficiente, que são realidade em todo o país. Impostos, falta de segurança, saúde, corrupção, infraestrutura, burocracia, gigante a lista de motivos para todos os protestos. A reação  da polícia, e da mídia, foram dois grandes catalizadores para a indignação geral.

Acho sensacional que o disparador de tudo tenha sido “só 20 centavos”. Isso mostra o quão séria é a situação. Estamos tão cheios, que apenas 20 centavos foram necessários para chegarmos ao limite. Não aguentamos mais nem 2 centavos de absurdo, que dirá 20. Pois já suportamos milhões, talvez bilhões, de atrocidades todos os dias. Atrocidades sim, me desculpe se a palavra parece pesada. Mas não é só agora que pessoas estão levando tiros no olho sem motivo. Também não é apenas quando a polícia usa de violência física que somos agredidos. Levamos tapas, socos, balas, todos os dias e nem percebemos.

Os manifestantes estão sendo retratados como vândalos, desnecessariamente agressivos. Não são. Seria ingênuo dizer que todos estão agindo de forma pacífica. No meio de 10 mil pessoas, alguns agem de forma extrema. Mas são minoria, e essa minoria é explorada para distorcer os protestos. A violência excessiva da polícia, essa deveria ser ressaltada. Não são poucos os casos em que pessoas são agredidas sem motivo, umas só queriam saber onde poderiam pegar o metro, outras estavam fazendo seu trabalho, filmando os acontecimentos, algumas estavam segurando flores, outras seguravam cartazes.

A ação horrenda da polícia não é exclusividade deste protesto. Para quem não lembra, o Conselho da ONU já recomendou o fim da polícia militar no Brasil.

Quando vejo, leio, acompanho tudo, não tem vinagre, spray de pimenta, bala de borracha, cassetete, multidão perto de mim. Assim como eu, milhares de pessoas estão longe dos acontecimentos. Inclusive alguns moradores da cidade de São Paulo, alguns devem até morar perto de tudo. O movimento na internet é ininterrupto, as informações circulam o tempo todo. Isso mostra a força do chamado “ativismo de sofá” tem, e que ele é aliado das manifestações nas ruas. As pessoas que estão ali, enviam seus relatos, vídeos, textos, fotos, pela internet, informam pessoas que estão longe da ação, que ampliam o protesto. Não são apenas 10 mil pessoas nas ruas de são Paulo, é um numero incontável de pessoas pelo país, e pelo mundo, junto aos que foram para as ruas. Bom lembrar que uma coisa não exclui a outra, e não há obrigatoriedade em nenhuma. É possível participar de diversas formas, basta contribuir de forma efetiva. A movimentação na internet já garantiu diversas manifestações por todo o país.

A ampliação dos protestos também vai muito além dos temas iniciais,  chega aos mais diversos assuntos. Estamos discutindo a forma da manifestação em si, a reação da polícia, das pessoas. São nossos direitos, como um todo, que estão em foco. É a nossa capacidade de tomar as rédeas e mudar esse país, somos nós acordando, levantando e fazendo algo, somos nós tendo coragem de abrir a boca pra falar, de buscar informações.

“Isto é para os loucos. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que veem as coisas de forma diferente. Enquanto alguns os veem como loucos, nós vemos gênios. Porque as pessoas que são loucos o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são as que de fato, mudam.” 

Somos os loucos que acham que podem mudar o mundo. Aqueles loucos que lutaram, enfrentaram a violência da polícia, os loucos de cá, que espalham e ajudam o protesto a crescer. Todos nós que tentamos mudar o mundo, seja começando por uma pessoa. De um em um, ajudamos a mudar tudo. Sou louco sim, espero que você também seja.  

Continuemos loucos, por favor.