Noite de segunda-feira, 17/6.

Enquanto escrevo estas palavras, há um helicóptero sobrevoando minha casa. Neste exato momentos existem pessoas no centro, e outras próximas ao estádio em BH. Pessoas por todo o país, protestando. Muitos amigos, inclusive. Enquanto você lê isso talvez não estejam acontecendo manifestações, talvez sim, talvez discussões, talvez notícias, talvez tudo. A situação muda por segundo. Quero que tenham em mente o momento em que escrevi o texto. Fiz questão de apagar o que já havia preparado, de escrever escutando o barulho do helicóptero, me comunicando com amigos em diferentes manifestações, inclusive a alguns quarteirões daqui de casa.

Moro em uma região boa da cidade, central, bem localizada, no sul de BH. Região de classe média. Vivo no que já chamei diversas vezes, de bolha de segurança, na parte bonita e feliz. É de se pensar que eu seria contra tudo isso, pois minha vida é ótima. Sem assalto, faço tudo andando, sem trânsito, sem ônibus cheio. Em teoria, tenho uma vida confortável. Mas eu mesmo já chamei essa vida de ilusão, uma bolha incrivelmente sensível, que pode estourar a qualquer momento. Mas agora a bolha de segurança que explodiu não foi a minha, nem a sua, foi de nossos governantes. Nós acordamos!

Sou completamente a favor do protestos, já disse isso. Publiquei, na sexta (14/6), um texto sobre os motivos dos protestos, a violência da polícia, a incompetência de grande parte da mídia, o uso da internet.

(acabei de ver a notícia – superficialíssima - sobre jovem que caiu do viaduto)

A violência é unilateral, parte da polícia. A tentativa de repressão é absurda. Protestos, como o que foi em direção ao Mineirão, começam pacíficos, seguem pacíficos, até encontrarem ação policial.  Repito, seria ingênuo dizer que todos os manifestantes estão agindo de forma pacífica. Em meio aos milhares, alguns poucos agem com vandalismo. Mas não podemos tirar a legitimidades das manifestações por este motivo. Já falei disso na sexta, mas acho que vale repetir. A violência que estamos vendo por parte daqueles que deveriam nos defender, o grande catalizador das manifestações.

(Dizem, sem confirmação, que duas pessoas morreram. E que quem tentou socorrer, foi reprimido. Não há confirmação, no momento em que escrevo isso)

0s 20 centavos que faltavam, a gota d’água para fazer o copo (ou oceano) de insatisfações transbordar. A repressão policial fez com que tudo jorrasse.

Citando um pedaço do que escrevi sexta:

Acho sensacional que o disparador de tudo tenha sido “só 20 centavos”. Isso mostra o quão séria é a situação. Estamos tão cheios, que apenas 20 centavos foram necessários para chegarmos ao limite. Não aguentamos mais nem 2 centavos de absurdo, que dirá 20. Pois já suportamos milhões, talvez bilhões, de atrocidades todos os dias. Atrocidades sim, me desculpe se a palavra parece pesada. Mas não é só agora que pessoas estão levando tiros no olho sem motivo. Também não é apenas quando a polícia usa de violência física que somos agredidos. Levamos tapas, socos, balas, todos os dias e nem percebemos.

(O helicóptero acaba de passar bem perto do meu prédio)

Uma frase que se repete, “O gigante acordou”. Sim, acordamos. Com orgulho. Me emociona ver pessoas de todas as idades, classes, cidades, se unindo. É hora de cobrar nossos direitos, hora de dizer chega, já aguentamos demais.

Acordamos também com relação ao nosso papel. Nós somos a mídia!Provavelmente as informações mais completas sobre as manifestações estão sendo recebidas, disseminadas, por nós. Somos fortes nas ruas, somos fortes na internet. Somos incrivelmente fortes.

(Mais relatos de amigos jornalistas tendo equipamentos destruídos pela polícia)

Hoje li um texto com o qual me identifiquei imensamente. É lindo ver todos os protestos, é maravilhoso ver o país acordar, os feeds do facebook se transformarem em um canal de notícias completíssimo. Mas existe uma preocupação. O nosso foco! Não devemos ter um motivo único, mas devemos saber o que cobramos. Percebo, não só nas ruas, mas na própria organização das manifestações, uma grande dúvida com relação aos ideias, o que se cobra, contra o que se luta. Vale a leitura do texto, que é uma bela reflexão a respeito disso. Bom pensar nisso antes de voltar as ruas, organizar, discutir, protestar. Mas sem muita demora, pois já esperamos demais.

(Vi mais uma foto da ocupação do congresso)

(Novamente o helicóptero)

(Me enviaram o mapa dos protestos pelo país)

Manhã de terça-feira, 18/6.

Já não passam mais helicópteros por aqui, as pessoas nas ruas não estão em manifestações. A última coisa que li ontem foi sobre a votação da “cura gay”, que acontece hoje. Li aquilo e fui me deitar, não aguentei. Mais um absurdo, pois é disso que precisamos agora, mais um abuso. Bem, agora temos mais um motivo para ir as ruas.

Neste momento mais manifestações são organizadas, o senso de urgência cresce. Não querem esperar sábado, nem quarta, para voltar as ruas, querem hoje. Maior do que a urgência para voltar as ruas, é a urgência para mudanças, respostas, ações.

(Reação dos policiais após pedidos de socorro a jovem que caiu do viaduto)

Senso de urgência, imediatismo, que muitos dizer ser um dos males que a internet nos trouxe. A mesma internet que alastrou as manifestações, ajudou e ajuda a organizar novas, noticia de forma eficiente e rápida os acontecimentos. A mesma internet que torna tudo isso possível e tão forte. Como disse Eliane Brum em sua coluna “Quem tanto ironiza os “ativistas de sofá” precisa começar a entender que as fronteiras entre as ruas já não existem – ou pelo menos exigem outro tipo de interpretação.”. Sim, é hora de ir para a rua! Mas nem todos podem, e nem todos devem. Precisamos de grandes movimentações, nas ruas e fora delas. Se pode ir, vá! Se não pode, manifeste-se na internet. Se for, informe pela internet. Somos todos manifestantes, e podemos ser on e off-line ao mesmo tempo, em momentos separados. A informação ao vivo, partindo de nós, é o que torna estas manifestações tão poderosas.

(Um helicóptero sobrevoando a área. Achei que estava de passagem... Tem uns 10 minutos que eles está por aqui)

“Saímos do facebook e fomos para as ruas.” Uma das frase mais repetidas. E das ruas usamos o facebook, e do facebook fizemos uma nova rua. Uma rua onde se anda, uma rua reflexo das ruas físicas, umas extensão de nossos protestos.

(Acabei de ver a foto de um amigo nas manifestações de segunda... Ensanguentado)

Já estou no trabalho.

Ontem escrevi que não foi nossa bolha que explodiu, e sim de nossos governantes. Retiro o que disse. Nós estouramos nossa bolha de falsa segurança, saímos de nossa zona de conforto e ainda estouramos a bolha deles. Tudo de uma vez. Além de um basta em tudo, demos um basta para os óculos cor-de-rosa. Esse foi o nosso acordar.

Pedi isso no meu primeiro texto este ano, pedi um 2013 sem ilusão. Quando escrevi o texto, confesso que tinha poucas esperanças, mas muito desejo. Estou maravilhado com as manifestações, com a vontade das pessoas. Ao mesmo tempo enojado com a repressão. “Cuidado com o que deseja”, talvez eu devesse ter desejado um pouco mais, quem sabe...

O texto que citei ontem – você está lendo tudo isso de uma vez, eu sei – fala das múltiplas ideologias. Mantenho que não devemos escolher uma apenas. Mas também mantenho que devemos saber quais são as ideologias. Temos muitas, muitas mesmo. Eu sei. Nenhuma deve ser deixada de lado. Mas devemos estar cientes, para não gerar confusão e enfraquecer as manifestações. Corrupção, infraestrutura, saúde, educação, direitos humanos, liberdade de expressão, de ir e vir, de manifestar. Pense, saiba pelo que luta.

Estou repetindo isso por ser – no que diz respeito aos manifestantes - o que mais me incomoda. Não podemos deixar as múltiplas ideologias se tornarem motivo para dispersão e enfraquecimento, elas devem ser a base, a força de tudo. Não escolha por qual motivo você vai protestar e deixe os outros motivos para os outros, lute por todos.

(Confirmação, por parte de amigos, de que jovem que caiu do viaduto está bem e consciente)

Tarde de terça-feira, 18/6.

O gigante acordou, e não vai dormir tão cedo. Continuemos a nos manifestar, cobrar nossos direitos, discutir, falar. O Brasil mostrou sua cara!

Então te convido, vamos para as ruas?