Texto originalmente publicado, no Muza, em novembro de 2012. | Foto: 4th floor by Cecilie Harris

Semana passada eu falei do artigo ridículo da Veja. Essa semana me inspirei em um texto, maravilhoso, da Época. “Vivam os homens suaves”, de Ivan Martins, discute a importância da influência gay na vida masculina. Ivan fala de comportamento, cuidados pessoais, das mudanças com relação a identidade de gênero “a garotada está cada vez mais andrógina, confundido os códigos masculinos e femininos.”. O texto discute de uma forma leve, digo isso no melhor sentido possível, a masculinidade atual. 

O conceito de masculinidade é tema recorrente na minha coluna. E já me inspirei em outra colunista da Época, Eliane Brum, para escrever o texto “Libertação Masculina”.

A masculinidade de um homem é, há muito tempo, definida por conceitos aprendidos desde a infância. Homens não choram, homem gosta de carro, de luta. Homens eram pessoas que precisavam guardar todos os sentimentos e emoções, agir de forma, no mínimo, escrota, e tinham gostos predeterminados. Os gays começaram a desafiar os padrões de masculinidade, o que por muito tempo foi taxado como uma tentativa de imitar mulheres. Com o tempo comportamentos gays, ‘coisas de mulherzinha’, foram adotados por heterossexuais. 

Cada vez mais heterossexuais se permitem prestar atenção às roupas que usam, se depilar, se maquiar, cuidar do cabelo, demonstrar sentimentos. “Os homens falam, andam e dançam de uma forma que seria inaceitável nos anos 50.” Hoje os homens estão, aos poucos, conquistando uma liberdade da qual se privaram por muito tempo. 

Como bem disse Ivan, em muitas ocasiões é difícil distinguir quem é gay e quem não é. Antes a identificação era certeira. “Além de se vestir de forma parecida, homens gays e heteros estão igualmente malhados, bem definidos, de corpo cuidado. A vaidade que antes era feminina e depois virou gay agora é descaradamente masculina.” 

“A agressividade e a grosseria, que anos atrás eram a marca registrada de certa masculinidade, caíram em desuso. São mal vistas. Viraram quase um sinônimo de escrotidão. Há nisso uma influência benéfica da cultura gay. Ela modificou e amoleceu a cultura masculina, da mesma forma que o Gilberto Freyre diz que o Brasil fez com a cultura portuguesa – para melhor.”

O que antes era visto como a maior qualidade do homem, se tornou seu maior defeito. A máscara que muitos ainda usam para defender uma virilidade fantasiosa, deixou de ser o símbolo de masculinidade. Homens mais bem resolvidos, bem cuidados, sensíveis, com a mente aberta e portanto com maior senso crítico. Estão deixando as programações robóticas inventadas em tempos completamente diferentes dos que vivem, estão questionando. 

“(...) com quem as mulheres podem transar gostosamente, uma vez que eles têm uma relação melhor com a própria cabeça e o próprio corpo.”. As melhoras se estendem a todos os âmbitos da vida masculina, inclusive a cama. Cabeça melhor, corpo melhor, sexo melhor. Se livrando das amarras sociais, também se livram das amarras sexuais. Com mais liberdade de explorar seus desejos e fantasias, o homem heterossexual se tornou um parceiro sexual melhor, mais flexível. Sem todos os lixos que antes ficavam confinados em sua cabeça ele é capaz de se soltar mais. É o homem que muitas mulheres desejaram por muito tempo, o que chamavam de “gay que gosta de mulher”. O homem que possuía as características, antes ditas como, gays. O homem que se cuida, bem arrumado, perfumado, que conversa sobre os sentimentos, cozinha, cuidam da casa, mas que gostam de mulheres. Acreditava-se que eles jamais existiriam, que o “gay que gosta de mulher” era um sonho distante, quase impossível. Mas este sonho é uma realidade crescente. “Aquele outro tipo, o macho à la Clint Eastwood, estava sufocando seus sentimentos mais viscerais, tinha coisas demais a reter e a esconder. Além de falhar na cama nas horas mais inesperadas, ele era uma panela de pressão pronta a explodir. Ou a ter um AVC ou um enfarte aos 40 anos.”

E para finalizar este texto, me permitirei citar um parágrafo inteiro do texto de Ivan. Pelo simples fato de concordar com cada letras escrita. 

“Aliás, eu acho que a importância do movimento gay vai além das questões pessoais. Ou de casais. Quando um sujeito ou uma mulher lutam pelo direito de fazer sexo com quem desejar – e de andar na rua vestido como quiser, abraçado a quem achar melhor – ele e ela estão lutando, intrinsecamente, pelo direito de todos serem o que são. Os ganhos pessoais e íntimos de alguns se traduz em ganho público para a comunidade inteira. Quando um grupo socialmente discriminado é reconhecido em seus direitos, quando ele ganha espaço para expressar seus gostos e sentimentos (desde que isso não aconteça em prejuízo dos outros), a sociedade inteira se torna um pouco mais livre. Há uma lógica inexorável de contágio que começa com a liberdade do indivíduo, avança para o seu grupo e se espalha para a sociedade toda – e para o mundo. Quando os sinos tocam de júbilo, eles também tocam por todos nós. Gays e não gays.”