Texto originalmente publicado, no Muza, em setembro de 2012. | Foto: Alandus por Erwin Olaf, coleção Squares (1983-1993)

Quem me conhece, ou não, provavelmente sabe do meu amor por moda, e que eu jamais iria me referir a moda como simples pedaços de pano. Não é, exatamente, sobre moda que vou falar. A questão aqui é mais a respeito do gênero e os tipos de roupas que usamos. 

Comecei a falar dessa questão algumas semanas atrás. Lembra do pai de saia? 

Nós criamos as roupas, os cortes, estampas, comprimentos e etc. Também criamos a divisão entro vestuário masculino e feminino. O que mulheres e homens podem e não podem usar. Algumas coisas mudaram ao longo do tempo, como quando Chanel colocou calças nas mulheres. Algo inconcebível para a época. 

As mudanças mais recentes são de tecidos, cores, silhuetas  etc. A troca de peças entre os gêneros binários ‘parou’ na migração de peças masculinas para o guarda roupa feminino. Mulheres possuem, até certo ponto, a liberdade de usar peças ditas masculinas. Homens não podem simplesmente utilizar roupas femininas. E mesmo com uma certa liberdade, ainda vemos como um “exagero” alguns looks. 

Isso é uma demonstração da força do binarismo de gênero, o quanto temos ele como o padrão social. A diversidade de sexualidades, identidade de gênero e suas combinações é infinita. Isso deveria ser motivo o suficiente para existirem cada vez mais misturas. Algumas até existem. Modelos andróginos como Andrej, Marc Jacobs usando saias e vestidos, o pai de saia. Mas por algum motivo esses são vistos como casos isolados, exceções à regra. Assim como vemos gays, lésbicas, travestis, transexuais, drag queens, bissexuais, como exceções à regra da heterossexualidade. 

Falar das roupas pode parecer algo bobo diante de todos os problemas que enfrentamos. Mas as roupas são parte de nossa expressão, parte de nossas vidas, e o respeito e a diversidade devem existir de forma global. Temos a tendência de ignorar coisas que julgamos “superficiais” antes mesmo de pensarmos sobre sua importância. “Pra que discutir as roupas se pessoas são agredidas todos os dias?”. Quantos gays não escutam xingamentos pelas roupas que usam? Quantos não são agredidos pelas ‘roupinhas de gay’? Quantas pessoas de bem são chamadas de bandidos por causa de suas roupas? E se eu sair de vestido, serei respeito da mesma forma que quando saio de terno? A história do pai de saia é uma das provas de que uma roupa pode fazer muita diferença. 

As roupas são apenas pedaços de pano quando o assunto é gênero. É possível fazer um vestido respeitando às formas do corpo masculino, um terno respeitando às formas do corpo feminino, roupas que se adaptam a corpos andróginos. Deixam de ser pedaços de pano quando são moda, expressão. A discussão é um pouco ambígua e confusa, eu sei. Mas é importante separar a moda de verdade do preconceito que temos, e todos os disparadores que usamos. A moda em si é algo a se respeitar, mas a usamos para julgar, depreciar, discriminar. E antes de qualquer comentário a respeito da “ditadura da moda”, pense de novo. Estamos em 2012, a diversidade já invadiu a moda, talvez você não esteja olhando direito. 

Nós inventamos as roupas e os gêneros, talvez seja hora de reinventa-los.