Foto por: Braden Summers, parte do projeto ALL LOVE IS EQUAL

Escuto vários amigos repetirem que precisam de um namorado, como se o namorado fosse uma posse, algo adquirível. Isso me incomoda profundamente. Não que eu seja anti namoro, ou não entenda vontade de estar em um. Uma relação com amor de verdade é das coisas mais gratificantes do mundo. Mas me parece que a busca por um namoro é para preencher algo, como se o próprio valor, e felicidade, dependessem de outra pessoa. Ou a necessidade de cumprir uma norma social arcaica, de que o correto, e natural, é estar em um relacionamento. A ideia de que a solteirice deve ser uma fase relativamente curta entre um relacionamento e outro. "Você não namora há dois anos! Porque? Tem algo errado? Vou te apresentar um amigo."

Desde crianças somos programados para pensar que relacionamento é um objetivo de vida, a sair a caça de alguém. Que o natural é conhecer uma pessoa, se apaixonar, namorar, noivar, casar, formar família. É a ordem das coisas. Na verdade essa ordem foi criada pelo ser humano. Na minha opinião a busca por um relacionamento acaba levando a escolher uma pessoa que “sirva". Aquela pessoa que é agradável o suficiente, preenche certos critérios e só vai ficar ali durante certo tempo. Aquela pessoa “serve" para namorar com você. 

Buscar demais pode fazer com que percamos a chance de encontrar alguém realmente especial, que pudéssemos amar de fato, mesmo que por um tempo limitado. Acaba-se entregando a alguém que "serviu" e chegou primeiro, num relacionamento que não passa muito da fase lua de mel, perdendo tempo que poderia ser gasto com pessoas que valessem sentimento. O namoro começa mais pela necessidade da relação com alguém, do que pelo sentimento por uma certa pessoa. 

A pressão para namorar é enorme. Quem nunca ouviu uma tia perguntar “E as namoradas?”. Vivemos em uma sociedade em que se espera que as pessoas busquem por “amor”, procurem namorar e não fiquem sozinhas. O medo de ficar sozinho, solitário, é grande. A lógica é se você não namora, não tem ninguém. Lógica mais que furada, na minha humilde opinião.

Os solteiros são vistos como os solitários, as pessoas estranhas, deixadas de fora. Solteirice prolongada é como uma doença grave. Dois anos sem namorar? Sua doença já é quase sem cura. Você está condenado ao pior destino que um ser humano pode ter! Vai ficar para Titio, ou Titia, e viverá em um apartamento com 30 gatos! SOLITÁRIO!

Solitário? E os amigos? Aqueles que vão cuidar de você quando seu relacionamento forçado desmoronar? Eles só aparecem na hora de levar o sorvete? E sua família? Aquelas pessoas que estão com você desde que você não sabia falar e usava fraldas, aqueles que te amam só por você ter nascido? Ok, as vezes você sente falta de alguém para deitar com você, fazer carinho, te beijar com emoção. Te faz sentir bem, não faz? Mas basta ter uma pessoa fazendo isso? Basta só isso? Passa da fase de lua de mel? Será que você está viciado em ter relacionamento? Consegue feliz com você mesmo? Você se ama? 

Você se ama? De verdade? 

Estereótipos para solteiros não faltam, mas e dos viciados em relacionamentos? Se for para estereotipar essas pessoas, diria que tem problemas de auto estima, não se amam e são extremamente carentes. São incapazes de tentar resolver os próprios problemas e buscam conforto no primeiro colo confortável que encontram. Acertei? Pelo menos parte? 

A descrença na felicidade na solteirice também é enorme. Perdi a conta de quantas vezes fui descreditado ao falar sobre isso. “Você diz isso porque está solteiro”, “É inveja porque não consegue namorar”, “Dor de cotovelo isso aí”, “Não acredito”. A ideia da necessidade de relacionamento é tão grande, que desafiá-la parece a mentira que os solteiros contam para se sentirem melhor. Os argumentos são ignorados. Namorar é felicidade, essa é a verdade absoluta. Mas ninguém para e pergunta o porque. 

A única pessoa que, com absoluta certeza, ficará comigo pelo resto da minha vida, sou eu. Então melhor me amar e saber viver na minha companhia. Aprender a passar tempo comigo mesmo, valorizar as pessoas que me amam, minha família, meus amigos. No fim das contas isso só me torna um namorado melhor. Alguém capaz de amar outra pessoa de verdade, pois já sei o que é amar a pessoa mais importante na minha vida. Alguém que não depende de ninguém para ser feliz, mas que será feliz junto de outra pessoa. Se eu disser que quero um relacionamento com alguém, será pela pessoa e não por precisar de ter um relacionamento. Não quero namorado para enfeitar estante, trocar status do facebook. Se for me namorar, tem que se amar também. Pois não sou a pessoa que “serve” pra namorar, e que vai simplesmente ocupar o posto.

E não, não estou discutindo receita para achar a pessoa ideal. Nem dizendo que assim você encontrará apenas ótimos relacionamentos. Errar faz parte da natureza humana. Acredito que experiências são fundamentais na vida. Namorar várias vezes faz parte. A questão é se você precisa correr atrás, focar em achar alguém. Ou será que viver, e se manter aberto as possibilidades, é uma opção melhor? Deixar de depositar sua felicidade, bem estar, valor, em seu status de relacionamento. 

Cartas, carinhos, jantares são ótimos. Mas é esse seu conceito de relacionamento? Você não prefere ter um parceiro?

Alguém que vai fazer mais do que companhia, e preencher o espaço vazio na cama. Alguém que vá somar a sua vida, te fazer alguém melhor, te desafiar, te dar apoio. Alguém que vá viver com você de verdade. Relacionamento é muito mais do que carinho, declarações, presentes, passeios, mãos dadas. Relacionamento de verdade está em todas as interações, na cumplicidade. O parceiro é alguém que está presente sem você precisar pedir. Uma pessoa que está com você por amor e não por precisar de alguém. Relacionamento é uma parceria e não um status. Você quer alguém pra jantar com você? Ou alguém para viver, em todos os sentidos, com você? 

No começo é praticamente impossível saber se a pessoa se tornará sua parceira, se é a pessoa certa para você. E mesmo se ela for, um dia pode deixar de ser. Mas saber, no começo, se ela é a pessoa errada, é mais fácil do que você tem coragem de admitir. 

Não corra para um relacionamento e nem corra de um relacionamento. E tenha certeza de que uma parceria, mesmo que curta, vale muito mais que um “namoro”.