texto: Guilherme Bayara | Imagem: Weheartit

Pensamentos suspensos

Sozinho...

Fico balançando a caneta, entre os dedos, batendo na mesa. O papel está em branco. Estou mordendo a tampa da caneta. A tinta que preenche o papel não faz sentido, as palavras não se encaixam e as linhas se misturam. Volto a balançar a caneta. A folha continua branca, e quando a caneta por ela passa, deixa borrões não palavras...

Não devo ficar forçando criatividade, já estou careca de saber que não é assim que funciona. Vou tomar um chá...

“Meus pensamento afogados, afogados na criatividade envenenada, afogados na criatividade corrompida. Tomei o veneno da cobrança, aos poucos fiz minha criatividade adormecer.

Não, não pude suportar, ao ver minha criatividade, ela parecia morta...

Tomei do veneno, tomei com gosto, bebi até a última gota e assim meu romantismo morreu. Minha criatividade, pobre donzela, assim como Julieta ao ver seu amado morto, agarrou o punhal e o cravou em teu peito, assim morreu minha criatividade.

Sim, ela se matou. Afinal o que seria dela sem o romantismo. Mesmo para produzir tristeza, era o romantismo que ajudava a criatividade. Um sem o outro, significa o fim, significa a morte...

E o responsável por isso tudo fui eu... Eu me envenenei e os seguei. Eu fiz com que a criatividade adormece. Confundi o romantismo e fiz com que cometesse suicídio. Assim, desolei minha criatividade, foi como se eu tivesse cravado o punhal em teu peito...

Matei aos dois, então com a caneta me matei. Pois nada me dói mais que escrever estas palavras... Do que escrever meu próprio assassinato...”.

É, consegui escrever, sabia que devia ter carregado o caderno comigo.

“(...) Acho que meus pensamentos estão espalhados, suspensos por linhas frágeis. As histórias que já li pairam acima de minha cabeça, cada autor se esconde por entre as páginas. Aos poucos, como um enxame de abelhas eles se organizam, mas são silenciosos. Apenas flutuam, apenas se prendem a seus fios encantados, fios que reproduzem o som de harpas...

Não são como abelhas, são como anjos. E eles cantam, e trazem de volta a presença de meu casal favorito, do casal que mantém vivo.

Digo olá e peço desculpas por tê-los matado. Eles sorriem, estão felizes.

E me dizem que jamais morreram, estavam adormecidos. Explicam que são imortais.

Jamais se afogaram, jamais se foram, jamais morreram de verdade...

Apenas se machucaram, apenas me machuquei...

Minha criatividade e meu romantismo sempre estiveram aqui...

Eu é que olhava na direção errada, devia ter parado e percebido antes que meus pensamentos estavam suspensos, por linhas, linhas de harpa, e se condessavam em paginas e se juntaram a tudo que já li, que já vivi, que já pensei...

Eles sempre estarão aqui suspensos e produzindo a sua música. Eu é que tenho que me desafogar, ser capaz de ouvir a música que ressoa de suas linhas...

Ser capaz de olhar para cima e ver meus pensamentos suspensos...”

Consegui, finalizei.

O papel está repleto de boas palavras.

Não escuto mais o som da caneta batendo na mesa. Guardo a caneta.

Tomo meu chá tranquilamente...