texto: Guilherme Bayara | Imagem: Wehearit

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Tradução do titulo: Dor insuportável

Tenho este machucado em meu peito, essa dor que não vai embora.

Essa ferida que jamais se fechou.

Essa dor que me dilacera!

Acredito que não haja neste mundo dor maior que uma mãe perder um filho. Bom, é claro que não sou mãe e muito menos tenho filhos...

Mas essa dor me persegue...

É mais como uma vaga lembrança...

A parte que me lembro é mínima, mas intensa...

Sei que a maior parte desta lembrança é construída... Baseada no que me contou... Apenas alguns segundos são memorias reais, afinal estes, você seria incapaz de descrever...

Você me contou apenas partes... Acho que seria muito doloroso contar tudo...

Lembro de suas exatas palavras...

Contou que estava em um hospital, com cerca de 4 ou 5 anos. Nunca foi muito especifica com a data, acho que te dói lembrar. Apenas sei que eu era muito novo para me lembrar de alguma coisa... mas algo ficou gravado em minha memória.

Eu estava internado, muito doente. Ainda vivíamos na linha da pobreza, sem plano de saúde, sem dinheiro. E estava ligado a bolsa de soro.

Contou que eu disse: “Mamãe, quero voltar para casa. Me tira daqui mamãe.”

E é deste momento que me lembro...

Me lembro de teus olhos...

Você tentava me acalmar, mas teus olhos eram puro sofrimento... Nunca tinha visto tanto sofrimento, nunca tinha sofrido tanto...

Não entendia...

De onde vinha tanto sofrimento?

Em umas das primeiras vezes que me contou sobre o ocorrido, confessou:

“Achei que você morreria ali (...)”

Foi então que entendi...

Quando olhei em teus olhos, eu vi...

Eu vi...

Eu me vi morrendo, vi você sofrendo por pensar em me ver partir...

Senti e sinto até hoje, nem que seja uma lasca de sua dor...

Ainda não fui capaz de sentir dor maior, de sentir buraco maior, de tentar cicatrizar algo tão incessantemente e inutilmente...

Nunca vou esquecer de teus olhos naquele momento...

De tua esperança tentando me resgatar, mas teus olhos sofrendo em me ver partir...

Mesmo que não seja capaz de sentir o que você sentiu, fui capaz de sentir ao menos um pouco da dor de uma mãe... em ver teu filho partir...

Não parti é verdade, e o sofrimento de teus olhos que carrego na memória, a dor de meu pai que não sei se é lembrança ou construção também não... Estarão para sempre cravados em mim...

E cada vez que me lembro disso é como se eu estivesse partindo e teus olhos sofridos me dessem adeus...

Senti a dor de uma mãe ao perder um filho...

Senti a dor de minha mãe em me perder...

“História real. Um desabafo. Já havia conseguido passar alguns anos sem me atingir por esta lembrança. Mas ela voltou... Nunca fui capaz de repartir ela com meus pais... A dor em suas vozes ao contar minha quase morte é demais para que eles saibam que ainda sofro com isso, que me lembro... Apenas os causaria mais dor. Mãe, Pai se tiverem lido isso, peço perdão. Peço perdão por terem de aguentar mais esta dor, perdão por não ter contado antes... A verdade é que não conseguiria...”